Charles H. Spurgeon - Sermão - O Primeiro Milagre

Charles H. Spurgeon - Sermão - O Primeiro Milagre

INTRODUÇÃO Há momentos em que Deus nos surpreende não com trovões, mas com ternura. Não com um juízo que faz a terra tremer, mas com uma graça que faz o coração despertar. Às vezes, o Senhor abre a sua mão poderosa justamente onde ninguém esperaria vê-la: não no palco dos grandes, não no centro do poder religioso, não na arena da filosofia, mas na simplicidade da vida comum — numa mesa, numa casa, numa festa. Caná da Galileia é um desses lugares onde o céu se inclina para tocar o chão. Ali não havia tronos, nem púlpitos, nem pompa. Havia noivos, servos, água, talhas de pedra, rostos alegres e — de repente — uma necessidade. O vinho acabou. E, com esse pequeno esgotamento, o Espírito Santo abriu uma janela para a glória do Filho de Deus. Este livro-sermão nos convida a entrar nessa cena com reverência e proveito espiritual. Ele não nos chama a uma curiosidade fria, mas a uma fé viva. João não registrou este sinal para alimentar debates estéreis, e sim para conduzir o leitor à mesma conclusão que tomou os primeiros discípulos: Jesus manifestou a sua glória — e eles creram n’Ele. A narrativa é simples, mas a riqueza é insondável. É como uma fonte que parece pequena aos olhos apressados, porém, quanto mais se bebe, mais se descobre que há profundidade de céu naquela água transformada. Aqui aprendemos que o Cristo não é apenas o Senhor das solenidades, mas também das rotinas; não apenas das assembleias, mas dos lares; não apenas da hora da dor, mas também da alegria. Ele entra na vida como ela é — e, ao entrar, a eleva. Ele não despreza o humilde; não evita o ordinário; não se envergonha do pequeno. Onde os homens enxergam apenas detalhes, Ele vê o coração; onde percebemos apenas constrangimento, Ele manifesta glória; onde julgamos haver apenas falta, Ele prepara abundância. Mas não se trata apenas de provisão. Trata-se de revelação. A água que se torna vinho é um sinal — um selo do céu posto sobre o início do ministério de Cristo. A mesma mão que sustenta as estrelas, aqui, sem ruído e sem ostentação, governa a matéria como se lhe fosse natural fazê-lo — porque é. A glória que estava velada por anos em Nazaré começa a brilhar, e não brilha para alimentar espetáculo, mas para firmar fé. E esta é a grande pergunta que acompanha cada página: que tipo de fé nasce quando Jesus se manifesta assim? Uma fé que não apenas admira, mas se rende. Uma fé que não apenas concorda, mas descansa. Uma fé que não fica na margem, calculando, mas entra para dentro d’Ele, como quem se lança com tudo no Salvador suficiente. Porque o objetivo do sinal não é somente mostrar que Ele pode transformar água em vinho, mas revelar que Ele pode transformar o homem: a tristeza em alegria, a culpa em perdão, a fraqueza em força, a vida aguada em uma vida rica de graça. Se você vier a estas páginas como quem visita um relato antigo, sairá com pouco. Mas, se vier como um necessitado — ou até mesmo como alguém que está alegre, porém vazio por dentro —, descobrirá que o Senhor ainda sabe agir no momento exato, com a mesma majestosa facilidade, e com a mesma generosa abundância. Ele ainda é o Cristo que guarda o melhor por último. Ele ainda é o Senhor que não deixa a sua bondade falhar. Ele ainda é o Salvador que manifesta a sua glória para que os seus discípulos creiam — e, crendo, tenham vida em Seu nome. Entre, pois, em Caná com humildade. Observe o silêncio do milagre. Repare na condescendência do Salvador. Contemple a glória escondida sob a simplicidade. E, ao fim, peça a Deus aquilo que esta passagem sempre pretendeu produzir: não apenas que você reconheça um feito extraordinário, mas que você confie no próprio Jesus com confiança crescente, até que a sua fé, como a água das talhas, seja transformada — e você aprenda a descansar n’Ele com alegria, certeza e paz. Divino Cordeiro
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